Uma carta pra você, pai.

Hoje é 29 de julho, seu dia. E é a primeira vez que te escrevo depois que me casei e mudei de casa. De todas as que já escrevi, talvez essa seja a primeira carregada de tanto afeto, de tanta saudade.

Não tem como começar a te escrever sem citar uma música do Raul né? Porque falar de você, lembrar da minha infância e dos seus gostos, sempre me leva a ele.

“Somos a resposta exata do que a gente perguntou entregues num abraço que sufoca o próprio amor. Cada um de nós é o resultado da união de duas mãos coladas numa mesma oração!”

Ah pai, como eu aprendi com você! Você foi o homem que me ensinou a perder o  medo da chuva, que me mostrou o segredo da vida;  a ser essa metamorfose ambulante que sou e que me mostra sempre que não posso ter a velha opinião formada sobre tudo, sobre o que é o amor e sobre o que eu nem sei quem sou.

De todas as pequenas dádivas que aprendo com você, a maioria delas não foram por palavras, mas sim pelas canções que sempre ouviu, pelos livros que te vi lendo, pelos olhares sobre si e sobre o mundo.

Seu cuidado com o  jardim, com a hortinha de casa, com as plantas, com o quintal, com os alimentos, com a minha mãe com a gente. Essa simplicidade que é sua e que faz questão de dividir com os outros mesmo sem perceber. Você me ensinou a plantar! Mas mais do que isso, me mostrou que é preciso ter paciência para esperar germinar, crescer, florir para só depois colher. E nunca, nunca esquecer de aguar.

Todos os dias me mostra que ter menos é ser mais.

Você me ensinou a não desistir, a tentar outra vez e outra vez e outra vez… A ter fé em Deus e a ter fé na vida ainda que a canção esteja perdida. Me ensinou a ser sincera e desejar profundo e acreditar que sou capaz de sacudir o mundo – meu e o do outro.

Acredito que para um pai sempre fica a sensação de ser um ator coadjuvante, o parceiro invisível de nossas mães, a presença acolhida sempre como segunda opção.
Mas não se ressinta dessa posição pai, só assim aprendemos a importância do trabalho nos bastidores, das mãos que ajudam sem fazer alarde, do amor generoso mesmo não escancarado.
Cresci como observadora de sua presença. Fui te descobrindo aos poucos – mais pelo que queria desvendar em você do que pelas coisas que era capaz de mostrar.

Dia desses li algumas cartas que escreveu para minha mãe de algumas viagens e  percebi o quanto a vida passa rápido.
Sua caligrafia miúda, que eu sempre gostei, me ensinou o gosto pela escrita.
Sim pai, eu reconheço nossas semelhanças. Ainda mais agora!
Me inspirava vendo você todos os dias com um livro na mão, pouco importava os bens, a mídia, o futebol. Também gostava de ouvir suas musicas, lembra? Você as colocava naquele rádio antigo que você levou para a chácara e ficava a noite toda ouvindo Raul, Zé Ramalho, Pink Floyd, Legião ente tantos outros sucessos de uma época que eu ainda não conhecia.

Hoje a maturidade me trouxe um entendimento maior acerca do mundo e das pessoas. E assim consigo compreendê-lo melhor. Mais do que isso, consigo aceitar e concordar com a busca por um caminho com maior autenticidade. Você precisava de uma vida em que pudesse olhar-nos nos olhos, e acho que conseguiu.

O pai que eu sentia as vezes tão longe mesmo estando perto, agora me liga sempre me convidando para almoçar, para pedir ajuda com alguma coisa, para dizer qualquer coisa ou para ouvir novidades tão minhas.
Cresci pai, amadurecemos juntos, e enfim consigo enxergá-lo da forma que realmente é. Simples, sereno, homem, pai.

Continuo desejando essa felicidade que temos, essa bem quietinha, sem alarde e euforia. Essa paz que tem aí dentro de você. Que esses seus olhos azuis como o mar continuem a ver a vida que me ensinou a querer viver todos os dias. E que apesar dos dias difíceis você possa olhar para o lado e ver as pessoas incríveis que existem graças a você. Você tem duas filhas que te amam de uma forma tão grande, com tanta admiração, tanto carinho e que estarão com você para sempre.

Feliz aniversario paizinho, da sua filha que te ama incondicionalmente.

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